Adenomegalia periférica na criança: quando biopsiar?
Publicado em 7 de Julho de 2024 • Por Dr. Pedro Luiz de Brito
As afecções dos gânglios linfáticos, na faixa etária pediátrica, são bastante prevalentes. Na maioria dos casos, trata-se de uma situação aguda e autolimitada, que não requer tratamento. Porém, sempre que ocorre um aumento no tamanho dos gânglios (as populares “ínguas”), pais e pediatras preocupam-se com a possibilidade de tal alteração estar associada a neoplasias. O objetivo deste texto é dirimir essas dúvidas e facilitar o raciocínio quanto à indicação de biópsia nos casos de adenomegalias periféricas na criança.
Gânglios palpáveis são comuns — e quase sempre benignos
A maioria das crianças, desde o momento em que vão para os berçários, é exposta a uma série de infecções virais e bacterianas. Isso faz com que 38% a 45% delas, mesmo saudáveis, apresentem gânglios palpáveis. A região cervical (pescoço) é a mais frequentemente acometida. Considera-se um gânglio aumentado quando apresenta mais de 1 cm de diâmetro nas regiões cervical ou axilar, e mais de 1,5 cm na região inguinal.
A causa mais frequente de adenomegalia são as infecções virais, normalmente associadas a um desconforto local que regride após alguns dias. Nos casos em que a evolução sugere causa bacteriana (gânglio unilateral, vermelhidão na pele, dor, calor local e febre), prescreve-se antibiótico e, na dependência da evolução, considera-se a drenagem de eventual abscesso.
Sinais que sugerem a necessidade de investigar
As neoplasias mais frequentemente associadas a adenomegalias são o linfoma de Hodgkin, o linfoma não Hodgkin, o neuroblastoma, a leucemia e o rabdomiossarcoma. Os aspectos abaixo aumentam a suspeita e merecem avaliação especializada:
- Idade: crianças maiores de 10 anos.
- Localização: linfonodos supraclaviculares ou no triângulo posterior do pescoço; presença de gânglios em outras cadeias linfáticas.
- Características à palpação: gânglios de consistência dura ou borrachenta; maiores que 2 cm ou formando massa; sem mobilidade; indolores e sem sinais de inflamação.
- Evolução: aumento persistente por mais de duas semanas ou sem diminuição após quatro a seis semanas.
- Acometimento sistêmico: queda do estado geral, perda de peso, sudorese noturna, aumento do fígado e do baço.
- Exames complementares alterados: alterações no hemograma (em especial das plaquetas), alargamento de mediastino no raio-X de tórax ou ultrassom com gânglios arredondados e arquitetura/vascularização alteradas.
Quando e como é feita a biópsia
O padrão-ouro para confirmar ou afastar o diagnóstico de neoplasia é a retirada completa do maior e mais acessível dos gânglios acometidos — a biópsia excisional. Dependendo de detalhes técnicos, a retirada parcial (biópsia incisional) pode ser suficiente. A punção aspirativa com agulha fina, embora possa trazer informações importantes, geralmente não é realizada em crianças, pelo risco de material insuficiente e de resultados falso-negativos, além de, na maioria dos casos, exigir anestesia geral.
É importante ressaltar que uma única biópsia pode não fornecer uma resposta definitiva sobre a causa da adenomegalia, e essas crianças devem ter sua evolução acompanhada. A biópsia é um procedimento frequentemente seguro, mas complicações como sangramento e infecção, além dos riscos da anestesia, devem ser consideradas.
A mensagem principal
Na maioria das vezes, o resultado das biópsias mostra apenas hiperplasia linfoide reacional — ou seja, uma resposta natural do organismo. Ainda assim, os casos duvidosos devem ser prontamente encaminhados para avaliação do cirurgião pediátrico, evitando-se a demora no diagnóstico das crianças com neoplasias e suas graves consequências.
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